5 décadas de ECM

12/07/2019 | 10:26

Por Emerson Lopes *

E lá se vão cinco décadas desde que o músico e produtor alemão Manfred Eicher criou a gravadora ECM (Edition of Contemporary Music), em Munique, na Alemanha, em 1969. Para quem está mais familiarizado com a gravadora, sabe que a principal preocupação de Eicher é com a qualidade de som e a experiência que esse som cristalino e impecável deve causar no ouvinte. Aliado a essa obsessão, o selo alemão também se notabilizou por gravar músicos de diferentes partes do mundo, sem nunca se preocupar em “vender discos”.

Produtor alemão Manfred Eicher criou a ECM em 1969

Eicher é, acima de tudo, um apaixonado pela música e usa sua criação para poder expandir as mentes das pessoas e mostrar que há musicalidade em todos os cantos deste planeta. Com isso em mente, a ECM se tornou a casa de músicos de diferentes nacionalidades, entre eles, Jan Garbarek (Noruega), Tomasz Stanko (Polônia), Palle Danielsson (Suécia), Enrico Rava (Itália), Egberto Gismonti (Brasil), Dino Saluzzi (Argentina), Lakshminarayana Shankar (Índia), Miroslav Vitous (Iugoslávia), Stephan Micus (Alemanha), Arvo Pärt (Estônia), Anouar Brahem (Tunísia) e Manu Katché (França).

A ECM também é o lar de grandes nomes do jazz como os pianistas Keith Jarrett, Chick Corea, Vijay Iyer e Paul Bley, os guitarristas Pat Metheny, John Abercrombie, Ralph Towner, Terje Rypdal, Steve Tibbetts e Bill Frisell, os bateristas Paul Motian e Jack DeJohnette, o vibrafonista Gary Burton e o baixista Dave Holland.

Foi na ECM que o guitarrista Pat Metheny e o pianista Keith Jarrett chamaram a atenção do público. Metheny lançou seu primeiro disco – Bright Size Life (1976) – na ECM, aos 21 anos de idade, e continuou gravando pelo selo alemão por uma década, com destaque para os discos 80/81 (1981), Offramp (1982) e First Circle (1984). Para Jarrett, a gravadora é sua casa desde 1971, quando lançou o disco Facing You.

Disco duplo de 1975 apresentou o pianista Keith Jarrett ao mundo 

Mas nada superaria o disco duplo The Köln Concert (1975). O álbum é considerado um marco na carreira do pianista e um divisor de águas na trajetória da ECM. Até hoje, as improvisações de Jarrett neste álbum é motivo de espanto e admiração de novos ouvintes ao terem contato com este registro histórico que traz o pianista em um transe absoluto, solando e suando a cada compasso. Além disso, Jarrett tem uma dezena de discos, incluindo DVDs, lançados no formato de trio ao lado do baterista Jack DeJohnette e do baixista Gary Peacock.

Com o passar dos anos, o antenado produtor Manfred Eicher manteve seus ouvidos abertos para descobrir e gravar novos talentos da música instrumental. Entre os “novatos”, estão músicos como os pianistas Vijay Iyer, Craig Taborn, Tord Gustavsen e Marcin Wasilewski, o baixista Mats Eilertse, os trompetistas Mathias Eick e Avishai Cohen, o saxofonista Nicolas Masson e o guitarrista Jakob Bro. Conheça todos os artistas da gravadora clicando aqui.

Gismonti grava com o baixista Charlie Haden e saxofonista Jan Garbarek o disco Mágico (1979)

O Brasil tem um representante de peso dentro da ECM: o pianista e violonista Egberto Gismonti. É claro que o talento do brasileiro na passaria desapercebido pelo produtor alemão, que o contratou em 1976, quando lançou o disco Dança das Cabeças, ao lado do percussionista pernambucano Naná Vasconcelos. A longa parceria com a ECM, que dura até hoje, rendeu outros importantes discos como Mágico (1979), ao lado do baixista Charlie Haden e do saxofonista Jan Garbarek, e Dança dos Escravos (1989), disco solo de violão.

De olho nas novas gerações, em 2017, a gravadora colocou todo o seu catálogo nas principais plataformas digital, entre elas, Apple Music, Amazon, Spotify, Deezer, Tidal e Qobuz. Na ocasião, a ECM disse que os lançamentos nos formatos CD e LP vão continuar, mas que a prioridade da gravadora é que a música seja ouvida. Diante do aumento da pirataria e de sites que não pagavam direitos autorais pela execução de suas músicas, a gravadora teve que sucumbir aos novos tempos.

Guitarrista John Abercrombie gravou vários discos pela ECM

O trabalho do visionário Manfred Eicher, hoje com 76 anos, não acabou e sua inquietação sempre estará ditando os rumos da ECM. A essência de seu pensamento continua intacta. Em uma entrevista na década de 1990, ele sintetizou bem o que move seu trabalho e sua missão.

“Para mim, não se trata do que eu gosto ou não gosto. As minhas decisões baseiam-se sobretudo naquilo que considero merecer ou não merecer ser gravado. Os meus critérios não são critérios de gosto, e não importa se gosto ou não de um disco que vou editar, mas apenas avaliar se ele deve ser gravado. Mas o gosto do público não afeta a minha decisão. Apenas a música”.

Em 2011, foi lançado o DVD Sounds and Silence, que mostra os bastidores das gravações de vários músicos, entre eles, Arvo Pärt, Eleni Karaindrou, Dino Saluzzi, Anja Lechner e Anouar Brahem, e confidências sobre a relação profissional com Manfred Eicher. Além da seleção de vídeos abaixo, clicando aqui, você encontra uma playlist publicada pelo canal oficial da ECM no Youtube com dezenas de vídeos.

 

*Emerson Lopes    é jornalista, autor do livro     Jazz ao seu alcance, da editora Multifoco, e apresentador do podcast     Jazzy.     Saiba mais sobre o livro     aqui. Ouça o podcast    aqui

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Por Emerson Lopes *

E lá se vão cinco décadas desde que o músico e produtor alemão Manfred Eicher criou a gravadora ECM (Edition of Contemporary Music), em Munique, na Alemanha, em 1969. Para quem está mais familiarizado com a gravadora, sabe que a principal preocupação de Eicher é com a qualidade de som e a experiência que esse som cristalino e impecável deve causar no ouvinte. Aliado a essa obsessão, o selo alemão também se notabilizou por gravar músicos de diferentes partes do mundo, sem nunca se preocupar em “vender discos”.

Produtor alemão Manfred Eicher criou a ECM em 1969

Eicher é, acima de tudo, um apaixonado pela música e usa sua criação para poder expandir as mentes das pessoas e mostrar que há musicalidade em todos os cantos deste planeta. Com isso em mente, a ECM se tornou a casa de músicos de diferentes nacionalidades, entre eles, Jan Garbarek (Noruega), Tomasz Stanko (Polônia), Palle Danielsson (Suécia), Enrico Rava (Itália), Egberto Gismonti (Brasil), Dino Saluzzi (Argentina), Lakshminarayana Shankar (Índia), Miroslav Vitous (Iugoslávia), Stephan Micus (Alemanha), Arvo Pärt (Estônia), Anouar Brahem (Tunísia) e Manu Katché (França).

A ECM também é o lar de grandes nomes do jazz como os pianistas Keith Jarrett, Chick Corea, Vijay Iyer e Paul Bley, os guitarristas Pat Metheny, John Abercrombie, Ralph Towner, Terje Rypdal, Steve Tibbetts e Bill Frisell, os bateristas Paul Motian e Jack DeJohnette, o vibrafonista Gary Burton e o baixista Dave Holland.

Foi na ECM que o guitarrista Pat Metheny e o pianista Keith Jarrett chamaram a atenção do público. Metheny lançou seu primeiro disco – Bright Size Life (1976) – na ECM, aos 21 anos de idade, e continuou gravando pelo selo alemão por uma década, com destaque para os discos 80/81 (1981), Offramp (1982) e First Circle (1984). Para Jarrett, a gravadora é sua casa desde 1971, quando lançou o disco Facing You.

Disco duplo de 1975 apresentou o pianista Keith Jarrett ao mundo 

Mas nada superaria o disco duplo The Köln Concert (1975). O álbum é considerado um marco na carreira do pianista e um divisor de águas na trajetória da ECM. Até hoje, as improvisações de Jarrett neste álbum é motivo de espanto e admiração de novos ouvintes ao terem contato com este registro histórico que traz o pianista em um transe absoluto, solando e suando a cada compasso. Além disso, Jarrett tem uma dezena de discos, incluindo DVDs, lançados no formato de trio ao lado do baterista Jack DeJohnette e do baixista Gary Peacock.

Com o passar dos anos, o antenado produtor Manfred Eicher manteve seus ouvidos abertos para descobrir e gravar novos talentos da música instrumental. Entre os “novatos”, estão músicos como os pianistas Vijay Iyer, Craig Taborn, Tord Gustavsen e Marcin Wasilewski, o baixista Mats Eilertse, os trompetistas Mathias Eick e Avishai Cohen, o saxofonista Nicolas Masson e o guitarrista Jakob Bro. Conheça todos os artistas da gravadora clicando aqui.

Gismonti grava com o baixista Charlie Haden e saxofonista Jan Garbarek o disco Mágico (1979)

O Brasil tem um representante de peso dentro da ECM: o pianista e violonista Egberto Gismonti. É claro que o talento do brasileiro na passaria desapercebido pelo produtor alemão, que o contratou em 1976, quando lançou o disco Dança das Cabeças, ao lado do percussionista pernambucano Naná Vasconcelos. A longa parceria com a ECM, que dura até hoje, rendeu outros importantes discos como Mágico (1979), ao lado do baixista Charlie Haden e do saxofonista Jan Garbarek, e Dança dos Escravos (1989), disco solo de violão.

De olho nas novas gerações, em 2017, a gravadora colocou todo o seu catálogo nas principais plataformas digital, entre elas, Apple Music, Amazon, Spotify, Deezer, Tidal e Qobuz. Na ocasião, a ECM disse que os lançamentos nos formatos CD e LP vão continuar, mas que a prioridade da gravadora é que a música seja ouvida. Diante do aumento da pirataria e de sites que não pagavam direitos autorais pela execução de suas músicas, a gravadora teve que sucumbir aos novos tempos.

Guitarrista John Abercrombie gravou vários discos pela ECM

O trabalho do visionário Manfred Eicher, hoje com 76 anos, não acabou e sua inquietação sempre estará ditando os rumos da ECM. A essência de seu pensamento continua intacta. Em uma entrevista na década de 1990, ele sintetizou bem o que move seu trabalho e sua missão.

“Para mim, não se trata do que eu gosto ou não gosto. As minhas decisões baseiam-se sobretudo naquilo que considero merecer ou não merecer ser gravado. Os meus critérios não são critérios de gosto, e não importa se gosto ou não de um disco que vou editar, mas apenas avaliar se ele deve ser gravado. Mas o gosto do público não afeta a minha decisão. Apenas a música”.

Em 2011, foi lançado o DVD Sounds and Silence, que mostra os bastidores das gravações de vários músicos, entre eles, Arvo Pärt, Eleni Karaindrou, Dino Saluzzi, Anja Lechner e Anouar Brahem, e confidências sobre a relação profissional com Manfred Eicher. Além da seleção de vídeos abaixo, clicando aqui, você encontra uma playlist publicada pelo canal oficial da ECM no Youtube com dezenas de vídeos.

 

*Emerson Lopes    é jornalista, autor do livro     Jazz ao seu alcance, da editora Multifoco, e apresentador do podcast     Jazzy.     Saiba mais sobre o livro     aqui. Ouça o podcast    aqui

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