Chrissie Hynde mergulha em território desconhecido

16/08/2019 | 17:09

Por Emerson Lopes*

Sempre que um artista pop resolve entrar no jazz fica a impressão de que alguma coisa está fora da ordem. Para os mais eloquentes, a migração de gênero é coisa de oportunista e não deve ser levada a sério. Apesar da gritaria, isso tem acontecido desde sempre, mas o caso mais gritante foi a série de quatro discos The Great American Songbook, do cantor Rod Stewart, no início dos anos 2000.

O veterano roqueiro pegou os grandes standards da música norte-americana compostos por Cole Porter, George Gershwin, Rodgers & Hart, Harold Arlen e Irvin Berlin, acompanhado por uma orquestra, e soltou sua voz rouca. O resultado foi um sucesso estrondonso, apesar de toda a reclamação.

Ele não foi o primeiro a fazer isso, uma década antes, Robert Palmer e Diana Ross também gravaram belos discos com orquestra. A mesma fórmula também foi usada por Bryan Ferry, Michael Bubble, Michael Bolton e, mais recentemente, pela cantora Annie Lennox, que lançou o disco Nostalgia pela prestigiada gravadora de jazz Blue Note.

Aos 67 anos, Chrissie Hynde lança seu segundo disco solo longe do The Pretenders

Toda essa introdução nos remete a mais um disco com a mesma pegada. Desta vez, a “usurpadora” é uma senhora de 67 anos que responde pelo nome de Chrissie Hynde, também conhecida como a voz do grupo The Pretenders, que fez muito sucesso na década de 1980. O disco Valve Bone Woe traz canções compostas por Brian Wilson (The Beach Boys), Hoagy Carmichael, John Coltrane, Nick Drake, Ray Davies, Rodgers & Hammerstein e Tom Jobim, tudo acompanhado pelo the Valve Bone Woe Ensemble.

Antes que comecem a apedrejar Chrissie, que há muito tempo não lança nada relevante, é importante salientar que sua voz caiu muito bem em canções imortalizados por Nina Simone, Billie Holiday e Nancy Wilson. O cartão de vista é “How Glad I Am”, uma bela balada que fez grande sucesso com Nancy Wilson, mas aqui tem como destaques naipes de metais e uma guitarra muito bem postada.

E o que dizer do clássico “Caroline, No”, do disco Pet Sounds, dos Beach Boys? Mais uma vez, a voz de Chrissie mostra-se acertada e o arranjo oferece pitadas de dub que deixam a melodia ainda mais bela. Em “You Don’t Know What Love Is”, a melancolia toma conta de Chrissie e do ouvinte.

Capa do disco imita imagem do álbum Time Out, do pianista Dave Brubeck

Com “Wild Is The Wind” e “Absent Minded Me”, gravadas respectivamente por Nina Simone e Barbra Streisand, Chrissie deixa claro que o repertório priorizou temas mais femininos. Mas isso não a impediu de incluir “Once I Loved”, de Tom Jobim, “I Get Along Without You Very Well”, famosa na voz de Chet Baker, “River Man”, de Nick Drake, e “No Return”, dos The Kinks. O jazz aparece “de verdade” em “Naina”, de John Coltrane, e a instrumental “Meditation on a Pair of Wire Cutters, de Charles Mingus.

No último dia 6 de julho, no mitológico The Hollywood Bowl, em Los Angeles, California (EUA), Chrissie apresentou ao vivo o repertório de seu novo disco, acompanhada por uma grande orquestra. O resultado pode não ter sido brilhante, pois o local se mostrou inadequado para esse tipo de canção, mas ficou evidente que a cantora colherá bons frutos desta sua introdução ao jazz. Mas fica aqui um conselho de amigo, assim como fez neste show, inclua sempre alguns clássicos do The Pretenders no repertório. É bom não cutucar a onça com vara curta.

*Emerson Lopes    é jornalista, autor do livro     Jazz ao seu alcance, da editora Multifoco, e apresentador do podcast     Jazzy.     Saiba mais sobre o livro     aqui. Ouça o podcast    aqui

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Por Emerson Lopes*

Sempre que um artista pop resolve entrar no jazz fica a impressão de que alguma coisa está fora da ordem. Para os mais eloquentes, a migração de gênero é coisa de oportunista e não deve ser levada a sério. Apesar da gritaria, isso tem acontecido desde sempre, mas o caso mais gritante foi a série de quatro discos The Great American Songbook, do cantor Rod Stewart, no início dos anos 2000.

O veterano roqueiro pegou os grandes standards da música norte-americana compostos por Cole Porter, George Gershwin, Rodgers & Hart, Harold Arlen e Irvin Berlin, acompanhado por uma orquestra, e soltou sua voz rouca. O resultado foi um sucesso estrondonso, apesar de toda a reclamação.

Ele não foi o primeiro a fazer isso, uma década antes, Robert Palmer e Diana Ross também gravaram belos discos com orquestra. A mesma fórmula também foi usada por Bryan Ferry, Michael Bubble, Michael Bolton e, mais recentemente, pela cantora Annie Lennox, que lançou o disco Nostalgia pela prestigiada gravadora de jazz Blue Note.

Aos 67 anos, Chrissie Hynde lança seu segundo disco solo longe do The Pretenders

Toda essa introdução nos remete a mais um disco com a mesma pegada. Desta vez, a “usurpadora” é uma senhora de 67 anos que responde pelo nome de Chrissie Hynde, também conhecida como a voz do grupo The Pretenders, que fez muito sucesso na década de 1980. O disco Valve Bone Woe traz canções compostas por Brian Wilson (The Beach Boys), Hoagy Carmichael, John Coltrane, Nick Drake, Ray Davies, Rodgers & Hammerstein e Tom Jobim, tudo acompanhado pelo the Valve Bone Woe Ensemble.

Antes que comecem a apedrejar Chrissie, que há muito tempo não lança nada relevante, é importante salientar que sua voz caiu muito bem em canções imortalizados por Nina Simone, Billie Holiday e Nancy Wilson. O cartão de vista é “How Glad I Am”, uma bela balada que fez grande sucesso com Nancy Wilson, mas aqui tem como destaques naipes de metais e uma guitarra muito bem postada.

E o que dizer do clássico “Caroline, No”, do disco Pet Sounds, dos Beach Boys? Mais uma vez, a voz de Chrissie mostra-se acertada e o arranjo oferece pitadas de dub que deixam a melodia ainda mais bela. Em “You Don’t Know What Love Is”, a melancolia toma conta de Chrissie e do ouvinte.

Capa do disco imita imagem do álbum Time Out, do pianista Dave Brubeck

Com “Wild Is The Wind” e “Absent Minded Me”, gravadas respectivamente por Nina Simone e Barbra Streisand, Chrissie deixa claro que o repertório priorizou temas mais femininos. Mas isso não a impediu de incluir “Once I Loved”, de Tom Jobim, “I Get Along Without You Very Well”, famosa na voz de Chet Baker, “River Man”, de Nick Drake, e “No Return”, dos The Kinks. O jazz aparece “de verdade” em “Naina”, de John Coltrane, e a instrumental “Meditation on a Pair of Wire Cutters, de Charles Mingus.

No último dia 6 de julho, no mitológico The Hollywood Bowl, em Los Angeles, California (EUA), Chrissie apresentou ao vivo o repertório de seu novo disco, acompanhada por uma grande orquestra. O resultado pode não ter sido brilhante, pois o local se mostrou inadequado para esse tipo de canção, mas ficou evidente que a cantora colherá bons frutos desta sua introdução ao jazz. Mas fica aqui um conselho de amigo, assim como fez neste show, inclua sempre alguns clássicos do The Pretenders no repertório. É bom não cutucar a onça com vara curta.

*Emerson Lopes    é jornalista, autor do livro     Jazz ao seu alcance, da editora Multifoco, e apresentador do podcast     Jazzy.     Saiba mais sobre o livro     aqui. Ouça o podcast    aqui

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