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Jazz não morre, mas fica órfão sem eles

28/09/2021 | 11:59

O jazz morreu. Esta frase é falada desde o fim da década de 1960, quando o jazz perdeu sua força e “apelou” para o rock para continuar a ter visibilidade. Mas quem acompanha o jazz mais de perto sabe que ele está longe de acabar, diante de tantos jovens músicos talentosos que pipocam dos quatro cantos do planeta por meio da internet e das redes sociais.

Mas a metáfora “o jazz morreu” quase se torna verossímil quando perdemos grandes apreciadores e estudiosos do jazz. Nos últimos doze meses, entre setembro de 2020 e setembro de 2021, quatro personalidades que dedicaram suas vidas ao jazz partiram e deixaram, além de seus registros, um enorme silêncio na comunidade do jazz. São eles: Phil Schaap, Stanley Crouch, Zuza Homem de Mello e, mais recentemente, George Wein.

George Wein foi um visionário que criou os festivais de música

Wein é considerado o pai de todos os festivais. Ele comandou o Newport Jazz Festival (EUA) por cinco décadas e estabeleceu uma nova maneira de apresentar música ao vivo e ao ar livre. A primeira edição aconteceu em 1954 e todos….eu disse…todos os grandes nomes do jazz subiram ao palco do famoso Fort Adams State Park.

Ele também foi responsável pela criação do New Orleans Jazz & Heritage Festival, um dos mais importantes e influentes festivais do mundo. Como empresário, pianista e, acima de tudo, apaixonado por jazz, Wein tem seu nome imortalizado na história dos Estados Unidos. Ele morreu em 13 de setembro, aos 95 anos.

Os outros três senhores se notabilizaram por suas posições e seus conhecimentos na arte do jazz adquiridos em meio século de estudos, audições e, é claro, como espectadores atentos e apaixonados pela arte do improviso, tão característico s fundamental no jazz.

Stanley Crouch é um escritor e ensaista, além de um baterista de jazz mediano, segundo o próprio Crouch. Suas posições fortes sempre o colocaram como um critico influente e, às vezes, maldito. Como negro, ele rompeu publicamente com a ideologia negra nacionalista em 1979 e se tornou uma voz dissonante dentro da comunidade intelectual negra.

Crouch foi consultor do documentário Jazz, de Ken Burns

Paralelamente a isso, sua paixão pelo jazz expandiu seu repertório e o levou a escrever sobre o tema para publicações como o Village Voice. Em 1987, vira consultor artístico do programa Jazz at Lincoln Center, acompanhado por Marsalis, que mais tarde se tornou diretor artístico, em 1991. Crouch morreu em 16 de setembro de 2020, aos 74 anos.

Com Marsalis, foi consultor no documentário Jazz, de Ken Burns. Apesar da riqueza de detalhes e da importante contribuição ao jazz, o documentário de Burns não se preocupou em falar do jazz após década de 1960, uma falta que não foi corrigida. Assim como Marsalis, o jazz tradicional, na figuras de Louis Armstrong, Charlie Parker e Duke Ellington, sempre foi o foco dos estudos e admiração de Stanley Crouch. Ele recebeu a honraria NEA Jazz Masters, em 2019.

O paulistano Zuza Homem de Mello era e sempre será um patrimônio do Brasil. Sua dedicação e amor à música estão marcados na história da música popular brasileira. Como escritor, curador, palestrante, produtor, músico, musicólogo, apresentador….ufa….Zuza está presente em todos os lugares onde era possível ouvir qualquer uma das sete notas musicais.

Zuza tinha duas paixões: o jazz e a música popular brasileira

Como curador, foi responsável pela escalação dos músicos de todas as edições do extinto Free Jazz Festival, que aconteceu anualmente nas capitais paulista e cariocas, durante as décadas de 1980 e 1990. No fim da vida, ele foi retratado no belo documentário Zuza Homem de Jazz (2018), uma emocionante viagem aos Estados Unidos, onde Zuza estudou música na década de 1950. Zuza morreu aos 87 anos, em 4 de outubro de 2020.

Assim como Zuza, o norte-americano Phil Schaap também era um homem multimídia, desde o tempo em que essa palavra sequer existia. Mas sua grande paixão sempre foi o rádio, mais especificamente na WKCR-FM, estação de rádio administrada por estudantes da Universidade de Columbia. Por décadas, Schaap dividiu sua paixão e seu conhecimento com os ouvintes.

Schaap no habitat que mais gostava: comandando seu programa de rádio

Seu grande “tutor” foi o saxofonista Charlie Parker, cuja discografia foi minuciosamente estudada e dividida por Schaap. Essa devoção pelo saxofonista rendeu o primeiro dos seis Grammy que ganhou. Suas considerações na caixa Bird – The Complete Charlie Parker On Verve ficou com o Grammy de melhor notas em 1989. Em 2021, Schaap foi premiado com o NEA Jazz Masters. Anualmente, a entidade National Endowment for the Arts (NEA) premia pessoas que de alguma maneira contribuíram para o desenvolvimento do jazz.

*Emerson Lopes    é jornalista, autor dos livros    ” Jazz ao seu alcance” e “Springsteen“, ambos publicados pela editora Multifoco, e editor dos blogues Jazz ao seu alcance e Bruce no Brasil.

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O jazz morreu. Esta frase é falada desde o fim da década de 1960, quando o jazz perdeu sua força e “apelou” para o rock para continuar a ter visibilidade. Mas quem acompanha o jazz mais de perto sabe que ele está longe de acabar, diante de tantos jovens músicos talentosos que pipocam dos quatro cantos do planeta por meio da internet e das redes sociais.

Mas a metáfora “o jazz morreu” quase se torna verossímil quando perdemos grandes apreciadores e estudiosos do jazz. Nos últimos doze meses, entre setembro de 2020 e setembro de 2021, quatro personalidades que dedicaram suas vidas ao jazz partiram e deixaram, além de seus registros, um enorme silêncio na comunidade do jazz. São eles: Phil Schaap, Stanley Crouch, Zuza Homem de Mello e, mais recentemente, George Wein.

George Wein foi um visionário que criou os festivais de música

Wein é considerado o pai de todos os festivais. Ele comandou o Newport Jazz Festival (EUA) por cinco décadas e estabeleceu uma nova maneira de apresentar música ao vivo e ao ar livre. A primeira edição aconteceu em 1954 e todos….eu disse…todos os grandes nomes do jazz subiram ao palco do famoso Fort Adams State Park.

Ele também foi responsável pela criação do New Orleans Jazz & Heritage Festival, um dos mais importantes e influentes festivais do mundo. Como empresário, pianista e, acima de tudo, apaixonado por jazz, Wein tem seu nome imortalizado na história dos Estados Unidos. Ele morreu em 13 de setembro, aos 95 anos.

Os outros três senhores se notabilizaram por suas posições e seus conhecimentos na arte do jazz adquiridos em meio século de estudos, audições e, é claro, como espectadores atentos e apaixonados pela arte do improviso, tão característico s fundamental no jazz.

Stanley Crouch é um escritor e ensaista, além de um baterista de jazz mediano, segundo o próprio Crouch. Suas posições fortes sempre o colocaram como um critico influente e, às vezes, maldito. Como negro, ele rompeu publicamente com a ideologia negra nacionalista em 1979 e se tornou uma voz dissonante dentro da comunidade intelectual negra.

Crouch foi consultor do documentário Jazz, de Ken Burns

Paralelamente a isso, sua paixão pelo jazz expandiu seu repertório e o levou a escrever sobre o tema para publicações como o Village Voice. Em 1987, vira consultor artístico do programa Jazz at Lincoln Center, acompanhado por Marsalis, que mais tarde se tornou diretor artístico, em 1991. Crouch morreu em 16 de setembro de 2020, aos 74 anos.

Com Marsalis, foi consultor no documentário Jazz, de Ken Burns. Apesar da riqueza de detalhes e da importante contribuição ao jazz, o documentário de Burns não se preocupou em falar do jazz após década de 1960, uma falta que não foi corrigida. Assim como Marsalis, o jazz tradicional, na figuras de Louis Armstrong, Charlie Parker e Duke Ellington, sempre foi o foco dos estudos e admiração de Stanley Crouch. Ele recebeu a honraria NEA Jazz Masters, em 2019.

O paulistano Zuza Homem de Mello era e sempre será um patrimônio do Brasil. Sua dedicação e amor à música estão marcados na história da música popular brasileira. Como escritor, curador, palestrante, produtor, músico, musicólogo, apresentador….ufa….Zuza está presente em todos os lugares onde era possível ouvir qualquer uma das sete notas musicais.

Zuza tinha duas paixões: o jazz e a música popular brasileira

Como curador, foi responsável pela escalação dos músicos de todas as edições do extinto Free Jazz Festival, que aconteceu anualmente nas capitais paulista e cariocas, durante as décadas de 1980 e 1990. No fim da vida, ele foi retratado no belo documentário Zuza Homem de Jazz (2018), uma emocionante viagem aos Estados Unidos, onde Zuza estudou música na década de 1950. Zuza morreu aos 87 anos, em 4 de outubro de 2020.

Assim como Zuza, o norte-americano Phil Schaap também era um homem multimídia, desde o tempo em que essa palavra sequer existia. Mas sua grande paixão sempre foi o rádio, mais especificamente na WKCR-FM, estação de rádio administrada por estudantes da Universidade de Columbia. Por décadas, Schaap dividiu sua paixão e seu conhecimento com os ouvintes.

Schaap no habitat que mais gostava: comandando seu programa de rádio

Seu grande “tutor” foi o saxofonista Charlie Parker, cuja discografia foi minuciosamente estudada e dividida por Schaap. Essa devoção pelo saxofonista rendeu o primeiro dos seis Grammy que ganhou. Suas considerações na caixa Bird – The Complete Charlie Parker On Verve ficou com o Grammy de melhor notas em 1989. Em 2021, Schaap foi premiado com o NEA Jazz Masters. Anualmente, a entidade National Endowment for the Arts (NEA) premia pessoas que de alguma maneira contribuíram para o desenvolvimento do jazz.

*Emerson Lopes    é jornalista, autor dos livros    ” Jazz ao seu alcance” e “Springsteen“, ambos publicados pela editora Multifoco, e editor dos blogues Jazz ao seu alcance e Bruce no Brasil.

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